Nunca quis ir ao Portugal.
Aliás, nunca tive a vontade de conhecer um país que falasse a língua portuguesa para me sentir à vontade fora do Brasil.
E, por tabela, nunca imaginei que a vida européia via Portugal seria mais fácil, caso a tivesse escolhido, pela língua falada ser a mesma que a minha nativa.
Mas esse 'conto de fadas', de que a vida seria mais fácil, de que se ganham fortunas neste país, e de que brasileiros e portugueses são irmãos até hoje vivia muito na minha memória como tradições orais que não se esquecem. Você um dia ouve de alguém e guarda na memória.
E me pego pensando em Fafá de Belém e Maria Bethânia.
Cheguei em uma segunda-feira ao país luso, um dia corriqueiro e normal.
Pronta para ver a realidade de um país que eu não conhecia.
A conversa na imigração com o oficial foi amigável, porém, já uma prévia do país:
- 'Ah .... você é residente inglesa?'
- 'Sim, sou!'
- 'Pois é! Ninguém é perfeito... Primeira vez no país?'
-'Sim!'
- 'Que vergonha....'
-'É. Mas aqui estou.'
-'Boa estadia!'
E segui. Minha primeira impressão foi: 'nossa, que homem opinativo! Metido!'.
Sabia desde já que Portugal requeria uma boa dose de paciência.
E segui direto para a casa de L., uma amiga de infância que resolveu morar em Lisboa há 3 anos atrás e me deu um ultimato:
-'Olha, Maria Hilda, eu não chamo mais. Quando eu for embora de vez para o Brasil você vai se arrepender!'
Então, eu fui!
Antes de chegar à sua casa, pedi um café e li um jornal local. A manchete era:
'Portugal vai contra a tendência da União Européia e desemprego cresce 8.3% ao mês'.
Incrível! Portugal não é tão fácil como eu pensava.
Contudo, eu fui ao lugar atrás dos churrascos brasileiros, do vinho do porto, de alguns sacos de feijão, das bolsas de couro e dos cafés e das compras em geral.
Enfim, seriam férias como outra qualquer, mas nunca associando Portugal a um país da Europa.
Por que não é isso o que se sente quando se está lá.
Cheguei à casa de L. que co-habita seu apartamento com G., R. e S. , a namorada do último que vive lá por consequência.
L. me disse:
'É! As pessoas não entendem porque eu tô voltando, então cansei de explicar. Elas pensam que é uma maravilha morar na Europa e ganhar em euros.'
Eu respondi:
'Não é da conta de ninguém o que você quer fazer da sua vida. E para o seu consolo, eu que estou aqui há 3 horas e já fui rodada pelo taxista português como se estivesse no Rio de Janeiro, entendo muito bem o que você sente. Vá embora já!'
Daí por diante foi somente confirmar a primeira impressão.
Portugueses tratam brasileiros muito mal.
E mulheres portuguesas tratam mulheres brasileiras mais mal ainda.
É uma inveja descarada, ou seja, na cara. Eles não sorriem, gritam ao falar e perdem a paciência com você em um segundo!
Corrigem seu português mesmo que você peça por um café pago no estabelecimento mais caro do lugar.
Corrigem sutilmente. Corrigem repetindo a mesma frase com um sinônimo.
Um fora sutil!
Ou, então, ecoam por várias vezes um 'desculpe, não percebi!'
Por que não entenderam o que você quis dizer. Simples assim.
Tudo isso se justificaria se Portugal não tivesse colonizado o Brasil, e se Portugal não tivesse mais de 100 mil habitantes de nacionalidade brasileira (legalizados!) no país ao dia de hoje.
Fora outras nacionalidades de imigrantes de língua portuguesa.
A Inglaterra ainda hoje tem uma obrigação social com a Índia por ter imposto sua cultura lá por anos.
E o Brasil por mais que não precise de Portugal hoje, merece respeito pelas vidas dos seus índios e os frutos de seus pau-brasis.
Respeito, apenas!
De noite no segundo dia, em um bar da cidade, sentamos com um grupo de portugueses e brasileiros e entre os assuntos variados, chegamos a várias conclusões atestadas por um grupo que continha, um advogado, um dono de bar e um sócio de uma rede de sapatarias da cidade. Todos os três portugueses....
As conclusões foram nessa mesa de bar:
- Portugueses acreditam que a maioria das brasileiras recorre à prostituição quando não conseguem algo e que os homens brasileiros são ótimos para os trabalhos atrás de balcões ou em obras. Com o adendo de que portugueses gostam mesmo é de transar sem camisinha. E é muito normal pelo menos uma vez ou outra não usá-la.
- O termo 'favelado', 'neguinho' e 'paneleiro' (ou gay) é muito comum quando associado à nacionalidade brasileira. Eu, por exemplo, era uma que eles achavam que não era uma amiga 'favelada' de L.
- Portugueses crêem que brasileiros vêm ao país para tomar os seus empregos. Mesmo que não se submetessem a tais postos (em bar ou obra) por serem da comunidade européia.
Então, já pelo terceiro dia de tormento, e de conhecimento da vida de alguns brasileiros por lá, comecei a pensar em cada um deles com carinho....
G. é um doce de pessoa. Veio da Bahia, e segundo os portugueses estaria incluído na categoria 'paneleiro'. Como não sabe dizer não, noite após noite G. como gerente, fecha o bar 1 hora a mais do seu turno (sem direito à hora extra) sob a desculpa de um português que quer dar uma dica a ele sobre algo no país em troca do serviço de uma cerveja.
R. é ingênuo nos seus 22 anos. Porém por ser branco e alto, apela da sua virilidade e 'beleza' para conseguir o que quer. Trabalha em um bar mais caro do Bairro Alto, pelos mesmos tais atributos já citados, porém não cruza a linha do bar ao salão por não falar inglês (????) e só ter completado a quarta série do primeiro grau em Recife. Seu 'brasileiro' não é suficiente para ser garçom, então funciona, imagino, como enfeite de bar. R. estaria para os portugueses incluído na categoria dos que 'roubam' empregos lusitanos.
T. é um chef de cozinha simpaticíssimo de João Pessoa. Veste uma bata da Le Cordon Bleu, onde fez seu último curso de cozinha em Paris. Após o trabalho, corre para casa. Talvez, para não conversar com o dono do bar, pois para os portugueses estaria incluído na categoria 'paneleiro'.
Faz bem, ele.
S. veio de Recife e namora R. há 2 anos. Eu a conheci, enquanto a olhava se maquiando por 30 minutos entre pincéis e um teste de gravidez. Não mora em Portugal, mas acha que por R. vai acabar por lá. Na Europa desde os 11 anos de idade, conseguirá a nacionalidade alemã ainda este ano após 8 vividos no país das cervejas e salsichas. Trabalha como maquiadora profissional, mas para os portugueses, estaria incluída na categoria 'prostituta', já que como quase européia não poderia mais ser favelada e porque se pinta muitíssimo e é MUITO bonita.
E no último dia, resolvi me entregar ao consumismo para esquecer as mazelas, pois eu já não queria ver nem Belém, nem monumento de Descobrimento ou caraças nenhuma. Queria ir embora.
E a cena final foi com os 'carteiristas' no ônibus.
Uma cena de furto na ida ao destino, e outra na volta com os famosos 'carteiristas' bêbados no trecho Calvário-Chiado.
Enquanto lá fora, faziam 19 graus, sem sol.
Pensei: 'Antes, eu estivesse em um ônibus na praia do Flamengo.'
Pensei em minha mãe, que gosta de Portugal e tentei justificar o seu gosto.
Acredito que por não falar inglês, e ter um francês enferrujado, além de gostar de um bom prato de comida brasileira, esse seja o motivo do atrativo de Portugal para ela.
Tanto para ela, quanto para os seus turistas ou seus imigrantes.
É parecido com o Brasil, mas nem de longe é o Brasil.
Eu tentei acreditar nesse 'conto de fadas', mas confesso que a melhor parte de Lisboa foi o acesso ao Duty Free em euros na partida, a churrascaria brasileira com o mineiro de Uberaba me servindo picanhas ao alho, os sacos de feijão por 0,44 centavos de Euro cada e as desprezadas batas 'turcas' que comprei provenientes da Índia.
Adorei todos os brasileiros que conheci em Portugal, são lutadores natos, pessoas pacientes e 'raçudas'. Mas fui sincera quando me perguntaram se eu tinha gostado da cidade:
'Queridos! Espero encontrá-los em outro lugar!'
Ninguém merece ser desrespeitado ou ser mal-tratado por não ser de tal país.
Pensei em como os brasileiros são bons com os estrangeiros. Ah,... o respeito!
Queria que eu tivesse visto um Portugal diferente, mas não foi assim.
Tomara que saiam de lá o mais rápido possível, como a sábia L.
Friday, 5 October 2007
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1 comment:
Só se salvam os doces e a arquitetura, pelo visto.
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