Sunday, 21 October 2007

The hunter

Eu adoro tomar cafés e ir à cafés.
Minhas amigas sabem disso muito bem.
E sexta-feira passada, recebi como de praxe, um convite para tomar um desses, permeados de conversas e trocas de experiências.

Chegamos no horário marcado, pois somos pontuais e odiamos esperar outras pessoas.
Perfeito começo de encontro. Sem irritações.

Na chegada, avisei logo:
¨Hoje fingi que estou doente, e não fui trabalhar. Já que estamos perto do trabalho, não vamos sentar na janela.'

Ela concordou e soltou:
'Hoje estou com vontade de chorar.'

Eu disse, insensivelmente:
'Tudo bem!Mas não seria pelo mesmo sujeito que já a tem feito sofrer tanto, pelo menos.'

Ela:
'Sim, seria. Ele me fez uma proposta no dia do meu aniversário: que tenhámos uma amizade sexual e aberta.'

Eu:
'Ótimo! Parece-me ótimo! Você mora sozinha, e ele vem e sai quando você quiser. Porém, para esse tipo de relação me parece que uma linha, uma barreira de limite é essencial. Senão, ele invade a sua vida e te usa quando ele quiser.'

Ela:
'Ele não quer exclusividade e eu não estou pronta para isso, eu quero uma relação, uma conexão. Ele é um hunter.'

Hunter é a definição que demos há pouco tempo para um homem, ou mulher que não se satisfazem com uma única relação. Têm sempre um olho atento para outras mulheres, ou homens, flertam e não perdem nunca a oportunidade. Pensam pouco em consequências e agem caso qualquer uma outra opção apareça. É um comportamento primitivo, e eles são como caçadores em busca de presa.
É inato deles ser assim, e eles não sentem culpa.

Aproveitei para mostrar a ela uma situação muito mais complicada do que a dela.

S. está casada há oito anos e há três está completamente envolvida em uma relação de amor e paixão com alguém igualmente casado. Ela ama. O amante eu não sei.

A diferença é que ela se apaixonou por um hunter.
Ele tem a sua mulher em casa, e a tem todos os finais de semana intensamente por noites e horas.
Mas se ela não estiver disponível, ele investirá em outras.

Os dois trabalham juntos e como ninguém no ambiente sabe da relação, muitas vezes chegam aos seus ouvidos as palavras das estagiárias: de que ele deu em cima de uma delas, ou fez muitas perguntas sobre a vida delas, ou as convidou para um café.

Agora, o filme deles se complica mais um pouco.
Em breve, o hunter será um homem solteiro, pois, finalmente, está chegando o acertado dia da separação entre ele e sua mulher.

Ele morará sozinho e estará disponível, completamente disponível sem a mulher, e sem ela todos os dias. Enquanto, ela estará presa.

S. não sabe o que fazer.
Separa-se e começa do zero sozinha, ou continua na relação que está com seu marido.
Um eventual convite para que começassem tudo juntos com o hunter não aconteceu.

E aí é quando eu disse para ela:
'S. ainda vai sofrer um pouco mais, porque o hunter dela nunca deixará de ser um hunter. E ela nem entende o conceito ainda. Você, ao contrário, fez a escolha de que não quer participar disso e acabou com o romance. Sofre agora, mas sofreria mais ainda se o visse indo com outra mulher.'

Ela concordou:
'É isso mesmo, eu não poderia mudá-lo. Eu já decidi o que quero.'

E passei a mudar de assunto, pois não convinha desgustar um sofrimento tão recente. Ela terá tempo para fazer isso sozinha.

Passei então a me preocupar com S., pois esta não tem noção do que vem adiante e o fator para o futuro sofrimento será único: ela diferente da amiga do café, não decidiu o que queria para si.

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