Monday, 8 September 2008

Cenas em um celular

Eu tava até quieta.
Quieta demais, tanta coisa na cabeça que é comum me encontrar parada olhando para o vazio.
Pensando.

Aí, dois resolveram me cutucar.

O primeiro conheci em um jantar arranjado. Na verdade, eu caí em uma cilada e quando vi era tarde demais.
O namorado de uma amiga cozinhou, mas chamou um amigo dele.
A convidada para comer era eu, mas não eu sozinha.
E ficamos ali... Dois casais!

Situação, viu?

Eu confesso: gostei!
Os amigos andam se esforçando! Querem me ver bem, tem armado umas dessas para me ver emparelhada novamente.
Não acham legal que eu fique tão só.

Enfim, lá estou eu com esse sujeito que fala pelos cotovelos, com a retórica e a própria resposta.
Achei legal as estórias, mas ninguém mais falou naquela roda!
Ele não ouviu um segundo.
Ou ouviu, mas não ouviu olhando no olho.
Ouviu futricando com o celular, ouviu batendo a perna a mil, ouviu interrompendo a conversa com perguntas.

Ele falou da vida dele inteira, vendeu-se como boa pessoa, esforçou-se para dizer o que era: mas não escutou nada!

De repente, levantou-se e disse tchau!
Hein?

Ah, entendi essa tática!
Você deixa toda a informação e sai primeiro, para ver se a isca morde ou fica com vontade de ter mais do seu papo.
Hummmm!

Mas, o papo teve umas contradições de pensamento.
Ele era muito brasileiro classe-média, apesar de se vender de guerreiro, lutador, trabalhador.
Não colou.

Também corrigiu o meu sotaque.
Opa, negão! Não e NÃO!
Você não vem de baixo, sobe até o meio do mundo, chega na Inglaterra e corrige o sotaque de uma nordestina independente.
Você pirou?
Sim! Você está loooooooooouco! Pode amarrar.

'Um beijo, tchau!'
E eu disse: 'Um beijo!'
Um beijo mesmo.....

No dia seguinte, ligou à noite.
Falei que ia sozinha à uma festa, e ele aproveitou para pegar o meu número.
Mas não atendi!
Lembrei dele me corrigindo as palavras e me imitando o sotaque enquanto dizia que 'precisava de aprender mais inglês'.

No dia seguinte, disse que fui dormir cedo. E fui mesmo!
Porquê era melhor do que sair naquela noite.

O segundo enviou uma mensagem por celular dizendo: 'Hey sweety!'

Eu já ouvi isso de alguém em passado recente, e a mesma pessoa me veio à cabeça. Não podia saber se era a mesma pessoa, pois eu tinha deletado o tal número.

Respondi: 'Who is this?'
E recebi um: 'Its ur man'.

Ana, a basca, estava do meu lado, e mandou eu devolver um: 'qual deles? tenho vários!'
Mas, nem tive vontade.

Porquê se fosse mesmo um dos meus iria dizer, 'É fulano! Vem aqui agora, quero te ver, me liga!'
Aí, eu ligava!
Ou respondia.

No dia seguinte, o mesmo do telefone irreconhecível mudou de língua: foi para a nossa nativa, e falou: 'Você tá uma gata hje!'
E pensei 'pronto! agora até me segue!'.
Ou brinca de deixar a menina nervosa.

Vem negão!
Aparece, e me diz na cara que eu te encaro.

Logo depois da mensagem o fulano resolveu ligar.
Mas, aí já tinha falado merda.
Não atendi!

Foi bom ter o elogio, mas não inspirou credibilidade. Fulano só queria uma resposta.

Hoje, eu associei o número conferindo com um 'brodagem' se minha suspeita batia.
Eureka! Achei você, bobinho!

Mas, eu vou continuar me fingindo de morta.
Vamos ver se tu sabe caçar direito?

Que eu ando resoluta!

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