Sunday, 6 April 2008

Uma vida brasileira em qualquer lugar do mundo.

Conheci a Cris há 2 semanas.

Ela substituiu o John, o mesmo que uma vez me comparou a um cachorro comendo, e agora é responsável pelo território brasileiro em outro departamento, complementando o meu trabalho sempre.
Eu começo, ela acaba.

E começamos uma amizade de andadas no fim do expediente, rumo às nossas casas.

Cris casou há pouco tempo e é conservadora.
Seu marido é do Sudão, e é motorista de ônibus. Conhecendo-o você não imagina que aquele homem não seja brasileiro.

Eles conheceram-se na cozinha do restaurante no qual ela ainda trabalha, nos finais de semana, três anos atrás.
Ela ainda tem dois empregos, porquê precisa pagar os móveis do apartamento que alugou para eles viverem.

Cris tem sua mãe por perto, pois ela também vive em Brighton.
A prima mora na França, e a família do marido liga à toda hora para saber do paradeiro dele, principalmente a mãe do sujeito.

Cris frequenta uma igreja, então, adotou a do marido, a Ortodoxa, na qual todos falam árabe.

Cris justifica nossas andadas ao final do turno, a quem nos pergunta o porquê de andar tão longa distância, como um exercício para perder peso.
E eu morro de vergonha da justificativa que mais te faz parecer uma mulher vazia: perder peso!
Como se isso fosse tudo no mundo!

Cris em pouco tempo de convivência e muita intimidade me diz com frequência: 'tudo com calma, que papai do céu ajuda!'
Ela fez jornalismo em São Paulo, mas não abandona o 'papai do céu'.

Cris sente muita pena das pessoas, como Plínio sente também pena dos ingleses, ou outros brasileiros sentem pena de alguém por aqui.
Um sentimento cristão.

Eu rebato para todos: 'Pena é um sentimento indigno, gente! Não existem vítimas, todos fazem escolhas.'
Todos me olham de volta me achando cruel, inclusive Cris.

O marido de Cris não é branco, é árabe, mais não gosta de negros, e os cita como macacos, em tom de brincadeira.

Falávamos de ciclistas nas ruas, como eu sou, e do quanto o trânsito é cruel hoje em dia, e principalmente os motoristas de ônibus.
Ela soltou um: 'cuidado com meu marido, então!', em tom de riso!
De volta, ela ouviu: 'não há amizade nessas horas, principalmente se me causar um acidente! eu se fosse ele seria cuidadoso, pois eu denuncio mesmo!'

Ela ficou calada.

Cris fala do gerente do restaurante que trabalha demais e não vive, que este está muito rico e não tem uma mulher.
O tal dono também tem um amigo, e Cris suspeita que o tal seja 'frango'.
Por quê quem trabalha muito, tem dinheiro e não tem um relacionamento, com certeza, é triste na vida.

Cris estuda espanhol, mas, por enquanto, só fala: 'sí, sí!'
Fica no portunhol, por enquanto!
Sua vida me lembra a vida de qualquer outra brasileira em Recife.
Marido, dois empregos, igreja, perda de peso e preconceitos antigos com a vida!

Um desses dias, passou um rapaz bonito por nós duas e eu soltei:
'Deus te abençoe, meu filho! Lá em casa você nunca iria ter fome!'

E ela me disse com o dedo em riste: 'Então largue o seu marido! Don't be naughty!'
Fiquei chocada com a ordem e disse: 'Não acredito nas coisas que saem da sua boca! Você é conservadora ao extremo!'

Ela respondeu: 'Hahaha! É mesmo, eu sou muito xarope!'

Mas só que a minha tosse acabou, e eu acho que já é hora de guardar esse xarope tão amargo e tipicamente brasileiro no armário.

Porém, eis a questão:
Como se diz a alguém de maneira educada que você odeia ouvir bobagens?

Aceito sugestões.

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