Friday, 1 February 2008

Picareta - o retorno!

Picareta é uma palavra que me fascina até hoje!

Para mim, 'Picareta' e 'Medíocre' são palavras fortíssimas!
Meus pais sempre repetiram estas palavras com um desdém que nenhum grito de 'Filho da Puta' poderia alcançar.
'Isto é picaretagem! Cheio de picaretas!'
E eu tinha vergonha dos que eram chamados assim.

Eu sempre tive medo de ser 'Picareta', apesar de ter me libertado da pressão e já me permitir ser medíocre na vida.

Porém, PICARETA, NUNCA! Este seria um outro nível de caráter.
Não se pode fingir o que não é, e ser picareta!

A turma dos meus pais que iam lá em casa quando eu era pequena era a comunista, ou a do sindicato da Chesf, ou das eleições da esquerda, ou a do Crea, ou a de Olinda mesmo, ou a do Ponta de Rua, ou aquela dos bares de Olinda, ou os vizinhos.

E sempre me davam uma coca-cola para eu ficar quieta, enquanto a manguaça rolava solta.

A coca-cola também era dada nos bares de Olinda, aos quais meus pais me levavam: Aritana, Bar do Ninho...

Falavam de política, de eleições, tentavam eleger sempre alguém honesto e justo para ser vereador, alguém de preferência da esquerda.
Boca de urna escondido, sempre foi de praxe....
Tudo para ganhar do PFL.

O carnaval de Olinda tinha parte nisso.

O Eu Acho É Pouco era um bloco no qual essa turma toda ia. Eram todos amigos com os mesmos valores, trabalhadores sem muitos luxos, alguns com muitos filhos... ninguém passava fome, porquê todos tinham estudado e tinham o ideal de um Brasil melhor.

Ali, ninguém queria ser 'picareta'. Ou fingir que faziam política para ter benefícios.

Os filhos dos que iam ao Eu Acho É Pouco, eram levados para tomar coca-cola no 'Eu Acho É Pouquinho'. E por anos, este foi meu único dia de carnaval de Olinda.

Era outra época.
O coletivo era mais forte.
Não éramos tão individualistas, no pós-ditadura, nos anos 80.
Ser individualista quando existiram pessoas que morreram como presos políticos era inadmisssível.

Tinha rifa e baile para ajudar 'fulana' que tinha 2 filhos e não tinha como sustentar os meninos.
Eu lembro disso!

Porém, esta semana eu caio na real, morrendo de vergonha.
Vergonha de alguns amigos olindenses!
Dos que comigo, são filhos de uma outra história e que HOJE SÃO OS TEMIDOS PICARETAS!

Como isso aconteceu, eu não sei...

Eu entendo que os pais morreram, e que os valores mudaram, que ninguém se mistura, que elite é status, que ninguém se ajuda...
E mais do que ninguém que o poder corrompe!

Eu odeio elite, e saí do Brasil por várias razões..
A mais importante foi falta de oportunidade e valor.
Eu sou mais valorizada aqui do que no Brasil.
Eu nunca fui desempregada por aqui.... mesmo que não faça o que eu gosto!
Mas desemprego não acontece!

E voltando à semana de carnaval, eu só queria dizer que eu fico com muita vergonha ao saber das histórias da Fundarpe, da Prefeitura de Olinda, do cordão de isolamento em shows que deviam ser públicos, em grade de separação que lembra a Bahia, em camarote vip.

Eu não faço parte dessa história, e a todos que vivem ou convivem com essas histórias hoje, eu só posso dizer:

Os pais dessas pessoas, com certeza, estariam chamando todos esses olindenses no poder de PICARETAS!

E eu continuo com muita vergonha...

Desculpo-me desde aqui, tão de longe, por esses que um dia foram meus amigos e dividiram momentos tão importantes do Brasil político juntos, em meio a árvores, circos, pipocas, coca-colas, jogos de 'gato-mia', e uma inocência que nunca poderia ser picareta ou elitista!

Só tenho muita vergonha de ler e-mails de reclamação sobre o 'povinho de Olinda'.

Com certeza, espero, nem todos são picaretas!
Aliás, eu nunca esperei que estes teriam retorno e seriam parte dos nossos.

Este texto vai para todos que me reclamaram hoje das figuras jovens, superficiais e caricatas de Olinda, que fizeram cordão de isolamento em blocos, ou em shows de Edu Lobo e João Donato neste carnaval, a falsa nata intelectual Olindense.
Eu sou de Olinda, eu conheço todos, porém ainda acredito que um dia todos cairão na real e se corrigirão.... Ou pelo menos, espero assim!

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